A característica básica do
século XXI será a consolidação do processo de globalização. Esse fenômeno deve
ser corretamente entendido. Ele não é apenas um dado econômico, político e
cultural, afetando os seres humanos. Ele tem a ver com a história da própria
Terra como Planeta. Mais e mais ganha adesão na consciência coletiva que a
Terra é um superorganismo vivo que tem bilhões de anos de evolução e de
história. A Terra é parte da história do universo; vida é parte da história da
Terra e a vida humana é parte da história da vida. Cosmos, Terra, vida e
humanidade não são realidades justapostas, mas formam um todo orgânico.
Como humanos, somos filhos e filhas da Terra, melhor ainda,
somos a própria Terra que chegou ao seu momento de consciência, de sentimento,
de liberdade e de responsabilidade. A globalização se insere dentro desta
perspectiva universal. Os seres humanos que estavam dispersos em suas culturas,
confinados em suas línguas e estados-nações, agora estão voltando de seu longo
exílio rumo à casa comum que é o Planeta Terra. A globalização representa esse
momento novo da Terra e da espécie humana. Todos se encontram como num único
lugar: no Planeta Terra. A partir de agora não haverá tanto a história da
Alemanha ou do Brasil, mas a história da humanidade unificada e globalizada,
unida com a história da Terra.
Esse fenômeno novo foi detectado com grande impacto emocional
pelos astronautas em suas naves espaciais ou da Lua. Muitos deles, pasmados,
confessaram: "daqui da Lua não há distinção entre russos e
norte-americanos, entre brancos e negros, entre Terra e humanidade; somos uma
única realidade viva, irradiante e frágil como uma bola de Natal dependurada no
fundo negro do universo; temos o mesmo destino comum; devemos aprender a amar a
Terra como a nossa Casa Comum".
A globalização traz consigo uma consciência planetária. Temos
apenas esse Planeta para morar. Importa cuidar dele como cuidamos de nossas
casas e de nossos corpos. E estamos todos ameaçados seja pelo arsenal de armas
nucleares e químicas já construídas e armazenadas que podem destruir a
biosfera, seja pela sistemática agressão aos ecossistemas que colocam em risco
o futuro do Planeta. Desta vez não haverá uma arca de Noé que salve alguns e
deixe pereceber os demais. Ou nos salvamos todos, biosfera e humanos, ou
pereceremos todos.
Essa consciência coletiva forçará a criação de organismos
internacionais destinados a gerenciar os interesses coletivos destinados a
garantir um destino comum para todos e para o Planeta. Mais e mais nos sentiremos
como uma única sociedade mundial, una pelas convergências comuns e diversa
pelas expressões culturais diferentes de realizar essa unidade. Sentir-nos-emos
como uma única família, a família dos humanos. Esse sentimento de família irá
criar uma nova solidariedade. O escândalo de dois terços da humanidade, feita
de pobres e marginalizados será tido como intolerável. Far-se-ão políticas
globais para criar um tipo de sociedade mundial na qual todos possam caber com
um mínimo de dignidade. Haverá mais justiça societária e menos violência no
mundo.
O fenômeno da globalização e de sua correspondente
consciência planetária dão origem a outro paradigma civilizacional. Ele se
caracteriza por um novo modo de relacionar-se com a natureza e com os povos,
por uma nova forma de produção, por uma redefinição da subjetividade humana e
do trabalho. Vamos considerar alguns destes pontos.
Na medida em que cresce a consciência planetária cresce
também a convicção de que a questão do meio-ambiente, da ecologia, é o contexto
de tudo, das políticas públicas, da indústria, da educação e das relações
internacionais. Os recursos não renováveis estão se exaurindo e o equilíbrio
físico-químico do Planeta está profundamente afetado. Ou mudamos de padrão de
comportamento para com a natureza ou vamos ao encontro do pior. Por isso a
sociedade do século XXI consumirá com mais responsabilidade. Fará uma nova
aliança de respeito e de veneração com a natureza. O desenvolvimento se fará
com a natureza e não contra ela ou à custa dela, como se fez durante séculos.
Haverá um pacto social mundial entre os povos baseado em três
valores fundamentais que todos assumirão: (1) salvaguardar as condições para
que o Planeta Terra possa continuar a existir e a co-evoluir; (2) garantir o
futuro da espécie humana como um todo e as condições de seu ulterior desenvolvimento;
(3) preservar a paz perpétua entre os povos como um meio de solução de todos os
conflitos que sempre existirão.
A sociedade do século XXI será profundamente uma sociedade do
conhecimento, da informação e da automação. Terá incorporado socialmente a nova
natureza do processo tecnológico. A tecnologia inaugura uma nova história. Até
agora as sociedades se construíram sobre a força do trabalho humano, completado
e potenciado pela máquina. O trabalho construiu tudo, modificou a natureza e
originou a cultura. Agora o robô e os computadores substituem o ser humano.
Milhões de trabalhadores são dispensados. Nem sequer entram a compor o exército
de reserva de mão de obra a serviço do capital. São excluídos do processo
produtivo.
Como ocupá-los com sentido? Como passar do pleno emprego para
a plena atividade? Os trabalhadores deverão ser flexíveis, mostrar habilidade
para trabalhos e atividades produtivas não vinculadas ao mercado. Possivelmente
o ministério da cultura e do desporto será um dos ministérios mais importantes
dos governos futuros, pois eles deverão criar alternativas de ocupação para
milhões que estarão fora do mercado do trabalho assalariado. Por outra parte, o
trabalho, libertado do regime de salário, assumirá seu sentido originário de
atividade plasmadora da natureza a partir da criatividade humana. Os autômatos
libertarão o ser humano do regime da necessidade de ter que trabalhar para
viver. Eles inauguram o regime de liberdade que permite ao ser humano
expressar-se de uma forma que somente ele, sujeito livre e criativo, poderá
fazer.
A nova relação para com a natureza no sentido de um
reencantamento e de maior benevolência fará que milhões troquem as cidades pela
vida no campo ou em cidades menores integradas ecologicamente com o
meio-ambiente. A preocupação pela qualidade de vida fará que as megalópoles
sejam transformadas profundamente pela recuperação dos rios, das paisagens, da
pureza da atmosfera e de sua riqueza cultural.
A automação do processo produtivo que aludimos acima abrirá
um espaço muito grande para a liberdade humana, para o tempo livre e para o
lazer. O encontro das culturas mostrará formas diferentes de sermos humanos O
homem terá menos coações sociais e mais liberdade para decidir seu projeto
pessoal. Os valores da subjetividade, a singularidade de cada pessoa, suas
preferências e filosofias de vida serão vistos positivamente como riqueza e não
como ameaça à unidade humana. O ser humano, devido à educação ecológica incorporada
em todas as instâncias, será mais sensível, mais compassivo, mas respeitoso e
mais cooperativo.
A liberdade conquistada redefinirá o estatuto da família. Ela
não se ordena, primeiramente, à procriação. Ela será o espaço onde a
experiência do amor e da intimidade poderá ganhar estabilidade e se transformar
num projeto a dois. As coações sociais e legais continuarão, pois a história da
desigualdade e até de guerra entre os sexos possui milhares de anos e se
cristalizou em arquétipos do inconsciente coletivo e em certos padrões de
comportamento social. Mas de forma crescente os parceiros organizam suas
relações de forma mais igualitária e democrática como expressão criativa de
seus sentimentos e menos como ajustamento a imposições sociais.
Talvez uma das transformações culturais mais importantes no
século XXI será a volta da dimensão espiritual na vida humana. O ser humano não
é somente corpo que é parte do universo material. Não é também apenas psique,
expressão da complexidade da vida que se sente a si mesmo, se torna consciente
e responsável. O ser humano é também espírito, aquele momento da consciência no
qual ele se sente parte e parcela do Todo, ligado e religado a todas as coisas.
É próprio do espírito colocar questões radicais sobre nossa origem e nosso
destino e se perguntar pelo nosso lugar e pela nossa missão no conjunto dos
seres do universo. Pelo espírito o ser humano decifra o sentido da seta do
tempo ascendente e se inclina, reverente, face Àquele mistério que tudo colocou
em marcha. Ousa chamá-lo por mil nomes ou simplesmente diz Deus.
Mais do que religião o ser humano busca espiritualidade. A
religião codifica uma experiência de Deus e dá-lhe a forma de poder religioso,
doutrinário, moral e ritual A espiritualidade se orienta pela experiência de
encontro vivo com Deus, prescindo do poder religioso. Esse encontro é vivido
como gerador de grande sentido e de entusiasmo para viver.
O século XXI será um
século espiritual que valorizará os muitos caminhos espirituais e religiosos da
humanidade ou criará novos. Essa espiritualidade ajudará a humanidade a ser
mais corresponsável com seu destino e com o destino da Terra, mais reverente
face ao mistério do mundo e mais solidária para com aqueles que sofrem. A
espiritualidade dará leveza à vida e fará que os seres humanos não se sintam
condenados a um vale de lágrimas, mas se sintam filhos e filhas da alegria de
viver juntos nesse mundo.
(Leonardo
Boff)
Imagem: google
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