
Um argumento pró-aborto típico se apoia na premissa
de que o bebê dentro do útero de sua mãe ataca a integridade física dela. O
bebê em desenvolvimento é visto nesse ponto de vista como um intruso, um
parasita, uma ameaça à autonomia da mãe. De acordo com essa perspectiva, a
mulher grávida é vista como estando sob ocupação. O único jeito de ela
continuar a exercer seu interesse na integridade física, diz esse argumento, é
ser libertada por meio da eliminação e expulsão do invasor.
Mas a ciência pinta um quadro vastamente diferente
sobre o relacionamento real entre um bebê no útero e sua mãe, mostrando que,
longe de ser um parasita, o bebê em gestação pode curar sua mãe pelo resto da
vida dela, pois as células benéficas do bebê passam para o corpo da mãe durante
a gravidez.
Jena Pinctott, escritora científica, explora esse
relacionamento em seu livro que foi lançado em outubro de 2011: “Do Chocolate
Lovers Have Sweeter Babies” (As Amantes
de Chocolate Têm Bebês Mais Doces? A Surpreendente Ciência da Gravidez).
A ciência vem estudando o fenômeno do
microquimerismo das células fetais por mais de 30 anos, depois que
pesquisadores da Universidade de Stanford ficaram chocados em 1979 ao descobrir
o sangue de uma mãe grávida contendo células com cromossomos sexuais Y.
Considerando que as mulheres só têm cromossomos X, eles concluíram que as
células só podiam ter entrado no corpo dela a partir do bebê do sexo masculino
que ela estava carregando.
Valendo-se de estudos de biologia, genética
reprodutiva e epigenética, Pinctott fez um esboço em seu livro do que a ciência
aprendeu desde a descoberta de Stanford.
“Durante a gravidez”, escreveu ela, “as células dão
um jeito de atravessar a placenta em ambas as direções. As células do feto
entram na sua mãe, e as células da mãe entram no feto”.
Os cientistas descobriram, disse ela, que as
células fetais de um bebê aparecem mais vezes nos seios saudáveis de uma mãe e
menos vezes numa mulher que tem câncer no seio (43 versus 14 por cento).
Pinctott indicou que à medida que a quantidade de
células fetais no corpo de uma mãe aumentam, a atividade de doenças de
autoimunidade tais como artrite reumatoide e esclerose múltipla diminuem. Ela
chamou a evidência de “tentadora” de que as células do bebê em gestação podem
oferecer para a mãe mais resistência contra certas doenças.
Certo tipo de células fetais que entra no corpo da
mãe é as células-tronco do bebê. As células-tronco têm o que Pinctott chama de
“propriedades mágicas” em que elas podem “se transformar” em outros tipos de
células por meio de um processo chamado diferenciação. As células-tronco fetais
do bebê podem realmente se tornar as próprias células da mãe que completam seu
fígado, coração ou cérebro.
No que
qualquer especialista em ética poderia declarar como legítima “terapia de
células-tronco embrionárias”, as células-tronco fetais do bebê migram para os
lugares machucados da mãe e se oferecem como remédio de cura, se tornando parte
do próprio corpo da mãe. Pinctott escreve que tais células foram encontradas em
“tireoides e fígados enfermos e se transformaram em células de tireoide e
fígado respectivamente”.
Pinctott chama a evidência de “impressionante” de
que as células fetais de um bebê “reparam e rejuvenescem as mães”.
O especialista em genética Dr. Kirby Johnson, do
Centro Médico Tufts de Boston, e a professora Carol Artlett, pesquisadora da
Universidade Thomas Jefferson da Filadélfia, apoiam as ideias de Pinctott. A
pesquisa deles mostra que quando uma mulher engravida, ela adquire um exército
de células protetoras — o que se poderia chamar de um presente vindo de seu
bebê — que permanece com ela durante décadas, talvez até o fim da vida dela.
Johnson e Artlett conversaram com Robert Krulwich
da Rádio Pública Nacional numa entrevista de 2006. Na pesquisa deles, Johnson
descobriu que uma colher de chá de sangue de uma mãe grávida continha “dezenas,
talvez até centenas de células… do bebê”. A ciência tem mostrado que no final
da gravidez de uma mãe, até 6 por cento do DNA no plasma de sangue dela vem do
bebê.
“Achávamos que elas [as células fetais no corpo da
mãe] seriam atacadas sem demora. Achávamos que seriam eliminadas em questão de
horas, ou mesmo dias. O que descobrimos é que esse não é o caso, de forma
alguma”, disse Johnson.
Artlett
apontou que ainda que uma mulher tenha um aborto espontâneo ou deliberadamente
aborte seu bebê, as células do bebê em gestação, apesar disso, permanecem com a
mãe, até mesmo por décadas.
Johnson e Artlett defendem a hipótese de que as
células fetais do bebê têm um propósito benéfico, de não prejudicar a mãe, mas
protegê-la, defendê-la e curá-la pelo resto da vida dela, especialmente quando
ela fica gravemente enferma.
“Há muita evidência agora começando a se tornar
conhecida de que essas células podem realmente ser curadoras”, disse Artlett.
Durante a entrevista, Johnson contou o caso de uma
mulher que foi internada num hospital de Boston com sintomas de hepatite. Ela
era usuária de drogas intravenosas com histórico de cinco gravidezes: um
nascimento, dois abortos espontâneos e dois abortos provocados. Johnson
especulou que ela estaria carregando muitas células fetais.
No processo de examiná-la, a equipe médica realizou
uma biópsia do fígado. Uma amostra do fígado dela foi enviada para um
laboratório para ver se alguma célula fetal havia se ajuntado à área enferma do
fígado dela. O que eles descobriram foi de surpreender.
“Encontramos centenas… e centenas de células
fetais”, disse Johnson, acrescentando que eles viram “literalmente coberturas
de células, áreas inteiras que pareciam normais”.
Os cientistas estão ainda tentando apurar o que faz
com que as células do bebê trabalhem no corpo da mãe dessa forma sinergética.
Pinctott fica tentando imaginar quantas pessoas
deixaram seu DNA no corpo das mães. “Qualquer bebê que tenhamos concebido”,
conclui ela.
Pinctott vê algo “belo” nisso. “Muito tempo depois
do parto, nós mães continuamos a levar nossos filhos, pelo menos em certo
sentido. Nossos bebês se tornam parte de nós, exatamente como nós somos parte
deles. As barreiras foram derrubas; os limites não são mais fixados”.
Talvez não seja nada poético dizer junto com
Pinctott que um bebê vive uma existência inteira no coração e mente da mãe.
Imagem: Google







